sexta-feira, 6 de setembro de 2013

Santo Eleutério de Spoleto



         Santo Eleutério (nome de origem grega que significa «livre», é-nos conhecido pelos Diálogos de S. Gregório Magno, ingénuos e às vezes profundos. O «venerável Pai Eleutério» era homem cuja vida exemplar confirmava as palavras. Este «santíssimo velho…, o abade Eleutério, homem de vida venerável», fez uma visita de edificação a uma religiosa de Espoleto e viu-a expulsar de um aldeão o demónio. Eleutério era «Pai (abade) do mosteiro de S. Marcos Evangelista, junto aos muros de Espoleto». E viveu em Roma muito tempo, no mosteiro em que S. Gregório foi religioso antes do seu pontificado; lá morreu também. 
         Os seus discípulos contavam que ele, com a oração, tinha ressuscitado um morto. Era homem de enorme simplicidade e compunção. Não há dúvida que lágrimas duma alma tão humilde e tão simples podiam obter de Deus Todo-Poderoso… Eis um dos seus milagres, por ele manifestado a Gregório com a maior simplicidade. Ia de terra em terra. Numa tarde, não encontrando lugar onde se acolher, entrou num mosteiro de virgens. Estava lá uma criancinha que o mau espírito atormentava todas as noites. As religiosas disseram, ao homem de Deus: «Não poderia, meu Pai, encarregar-se esta noite do menino?». 
         Ele recebeu-o com bondade e disse-lhe que se deitasse a seu lado. Tudo se passou sem incidente e as religiosas conseguiram que o velho levasse o pequeno para o seu mosteiro. O pequeno ficou lá muito tempo sem o antigo inimigo se aproximar dele. De tal maneira que o velho se deixou levar duma alegria um tanto presunçosa. Disse aos seus irmãos: «Meus irmãos, o diabo fazia pouco destas irmãs; mas agora que se recorreu aos servos de Deus, ele já não se atreve a aproximar-se do menino». Mas imediatamente foi o menino retomado pelo seu demónio. E o velho pôs-se logo a gemer e, procurando os irmãos consolá-lo, disse: «Confiai em mim, jejuemos hoje até o pequeno ser libertado».Então prostrou-se a orar com todos os irmãos e rezou-se até à cura da criança, que foi definitiva. 
          Nesta altura, o cardeal-diácono Pedro, o interlocutor de S. Gregório, intervém: «Julgo que Eleutério teve um bocadinho de soberba; por isso quis Deus que os discípulos concorressem com o abade para esta libertação». E Gregóriorespondeu: «Sim, é isso. Ele não poderia levar sozinho o poder do milagre; repartiu com os irmãos e levou-o. Mas eu pude experimentar pessoalmente qual a força de oração deste homem. No mosteiro – sofrendo eu muito nos órgãos centrais, com angústias frequentes que me levavam a julgar-me em artigo de morte (os médicos denominam este mal-estar com a palavra grega ««síncope») – se os irmãos não me alimentassem  muitas vezes, teria ficado sem o sopro vital; o dia de Páscoa avizinhava-se, era sábado santo, quando toda a gente jejua, até às crianças, e eu não podia jejuar e pus-me a desfalecer de desgosto mais que da doença». 
          Gregório recorreu a Eleutério, que rogou com lágrimas por sua intenção. «Ouvindo a sua bênção, o meu estômago recebeu tal força que esqueceu totalmente a alimentação e a doença. Fiquei pasmado; como tinha estado!, como estava agora!» E Gregório ocupou-se do seu mosteiro; sentia-se capaz de jejuar um dia completo. Isto dispô-lo a acreditar nas maravilhas que se atribuíam à oração de Eleutério.